Os Truques de Lua
Lembrei demais porque sou mulher moderna, sofisticada, que acha que quem nasceu pra forno e fogão é homem. Acho que a submissão feminina combina com cozinha. O homem decide o que fazer, o homem escolhe os ingredientes, o homem cozinha. A mulher serve vinho pro maridinho, ajuda a picar as coisas, dá uns apertos e uns beijinhos nele pra ele se sentir "o bom" (e continuar pilotando o fogão).
Acho lindo. Por que? Tem vários motivos...
Primeiro. Nunca fui em escola com laboratório de química, sabe? Na Psi não rolava dessas também. Tudo super teórico. Aí assim, essas coisas alquímicas, só tenho no arquétipo do signo de escorpião. Só. Tenho DDA, cara, como que alguém com DDA frita a carne e cuida do arroz e fica ali, num ambiente só? Que jeito? E aquela coisa na internet, e aquele projeto que de repente você tem uma idéia super legal? E aquela amiga que te liga? E aquele negócio que você esqueceu de falar pra sua avó? Vai deixar pra depois? Depois esquece. Rola não.
Só consigo fazer sobremesa, sou boa na sobremesa. O processo alquímico é simples. E sobremesa simples é avec, chique, sofisticado. Assim, que nem eu, sabe?
Segundo motivo: Herança familiar. Papai cozinha, mamãe ajuda, e nós ajudamos quando somos laçados e arrastados. Papai lidera. Leonino. Dá ordens, mas de mansinho, porque ele é leão manso. Faz comida de-li-ci-o-sa e pronto. A gente come. Trabalho mecânico, conversa agradável, "serve vinhozinho pro papai?", "pega a câmera ali e tira uma foto dessa flambada". Olha só, que coisa mais agradável. tem que ficar de longe pra tirar a foto da flambada.
Terceira razão: Tem uns momentos na vida que o amor toma conta do meu coração. Faço uns exercícios de chackra, minha tpm fica sensitive mode on. Aí quero amar as pessoas. Quero dar carinho e não me preocupo em receber nada em troca. Quero compartilhar, to share. Dar.. Assim, no sentido... Cristão da palavra.
Tipo antes de ontem. Tive a idéia de que queria fazer um jantar para uns amigos. Aí você chama os amigos, abre um vinhozinho (sacaram que esse padrão é super repetitivo né?), bate um papo na cozinha... Faz aqueles pratos que parecem ser simples, mas têm assim, uns toques, sabe? Já viram que cozinheiro sempre tem "uns toques"? É um aipo, uma pimenta, um bregueço enrolado no canto do prato, "um toque adocicado que é o diferencial do prato". Ouço isso demais. Sou fã da Nigela do GNT, ela tem toques e freezers cheio de coisas super meio prontas. Acho que meu sonho é ser a Nigela.
Então né, falei com a Ci, que, se tudo der certo, vai dividir um apartment comigo na capital federal onde moraremos com um cachorro e dois gatos, no mínimo. Uma família feliz. "Ci, quero fazer um jantar aí". Ci responde: "ADORO, faz no meu aniversário". Pronto. Homem da casa vai ser ela, já viram, ela decide as coisas. Só que aí, cardápio deixa que eu monto, afinal, eu que quero cozinhar, tipo um presente não só pra ela, mas pra Dida, pro Alce, pro Xela, pra Arma, pra Falls, pruns amigos da Ci...Enfim. Amor. Comida é amor. Todo mundo sabe disso. Como eu vou cozinhar, eu vou escolher.
Começa o sofrimento aí. Não sou super cozinheira, tem que ter vaquinha pra pizza e senso de humor de back up (porque não choro mais quando a comida não dá certo, peço pizza). Anyway, não posso de jeito nenhum escolher qualquer coisa. Mas, mesmo que eu pudesse... Gente, como a indecisão reina no meu ser! Já decidi com firmeza que vai ser carne com pimenta, risoto de abrobrinha, um risoto demais do Jamie Oliver, um spaghetti com rúcula e tomate seco (clichezaço).
Decidi, no final, parar de decidir.
Por isso estou esperando meu pai. Cozinheiro. Vai decidir: Faz isso! E eu vou obedecer, como a boa mulher submissa - na cozinha, com prazer - que eu sou.


