Os Adventos do Progresso
Essa é a praia de Ponta Negra. Uma das mais bonitas do estado. Da cidade com certeza é. A verdade é que, mesmo não sendo afeita à praias, a considero uma das mais bonitas do país. O morro do careca é sua marca registrada de onde todas as pessoas que vieram à Natal tem boas lembranças. Ponta Negra e Pipa é o que há de melhor e mais famoso por aqui.
Ambas as praias estão cheias de estrangeiros ultimamente.
Eu não acho ruim o turismo internacional aqui em Natal. Pipa, que sempre foi super simpática, está cada vez mais. Na noite que fui lá, vi um grupo de meninos batendo lata. Meu pai e meu irmão não gostam muito porque os meninos não são lá muito bons, mas eu gostei. Acaba que o clima da cidade faz as crianças tocarem, dançarem capoeira e "se amostrarem" (chia bastante no s) de alguma forma para conquistar os turistas. Pipa ainda tem gente de outros estados misturado com os gringos. Há muito tempo Pipa ganha com essa característica de cidade charmosa, com uma noite interessante e agitada, o que faz o comércio de lá ter um funcionamento diferente e fechar às onze.
Ponta Negra já não teve a mesma sorte.
O bairro, antes, quando viemos para cá, era periferia. Os ônibus nunca foram muitos. 46 e 56 eram os que eu pegava, ambos iam pra Ribeira, lá na "cidade", um pela costeira, o outro pela cidade. A gente tinha que acordar super cedo pra pegar o costeira que ia mais rápido pra poder ir pra escola. No bairro só tinha gente de fora. Os chamados "sulistas" pelos nativos (no nordeste muitos dividem o Brasil em Norte, Nordeste, Bahia e Sul, então, eu sou sulista). Gaúcho, goiano, brasiliense, carioca, paulista. Nós éramos tudo farinha do mesmo saco.
Hoje, Ponta Negra continua sendo bairro de gente de fora. Só que fora do país. Italiano, espanhol, nórdicos em geral, português. Estão sendo construídos vários prédios altíssimos aqui que serão vendidos diretamente pra Europa. No terreno da minha casa irão construir um. Foi vendido a uma empresa espanhola. A gente fica aqui imaginando os esgotos - que não são dos melhores, a gente teve fossa em casa durante muito tempo - na época de temporada. Vai ser como na nossa época, que fugíamos daqui nas férias porque faltava água.
Mas, nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que essa praia linda, hoje, está horrorosa. Última vez que vim aqui, lá era onde ficava o buchicho. Lá e na rua aqui de casa, mas na praia era puramente estrangeiro. Vivia cheio, fosse qual fosse o dia, ter um restaurante na praia era maravilhoso. Abrir um era caríssimo. Meu pai só podia sonhar.
Hoje estamos aliviados por só termos sonhado. A praia está feia, cheia de pequenos pedaços de metralha que o mar devolve. As barraquinhas que tinham feito ao longo do calçadão estão quase todas fechadas. E à noite, dá dó. Meu pai gosta de passar lá pra avaliar a decadência. Enquanto descemos a ladeira vamos vendo os italianos descendo. É fácil discernir. O jeito de andar com o peito estufado, as camisetas coladas, os cabelos arrumados. Metrossexuais clássicos. Todos descendo depois do jantar pra conseguir a sobremesa.
Prostitutas, óbvio.
Quase nenhum restaurante funciona lá mais. Os que funcionam têm poucas mesas, no calçadão as prostitutas e os travestis (maior produto de exportação brasil->europa) se exibem. Os meninos, ao invés de se "amostrarem", ficam seguindo os estrangeiros com cara de pobre coitado (a esmola que eles dão é uma notinha de dez, então...).
Triste, triste, triste. Quando eu cheguei no aeroporto, a primeira coisa que eu notei é que tem um vídeo que fica passando o tempo inteiro enquanto você procura suas malas, em inglês, contra prostituição infantil.
Sei que é assim desde o início dos tempos, mas ver isso acontecer no bairro onde eu me criei, fugindo da praia, brincando no cemitério e jogando queimada na rua é de cortar meu coração.
Infelizmente, a maioria dos europeus que aparecem por aqui são ignorantes, vindos de algum interior. Mafiosos também, lavando dinheiro. Tem algumas pessoas legais, o dinheiro é bom. Sei também que não é culpa deles, é culpa da infra-estrutura daqui, da pobreza, assim como também não é culpa nossa o que acontece com a imigração dos países de terceiro mundo pra lá.
Por isso agora eu tenho alguma coisa muito pessoal pra esfregar na cara deles se algum europeu ignorante for reclamar que nós, latinos, tiramos o emprego deles ou aumentamos a violência.
Vocês fizeram minha infância de bordel, e daí?