Cartas a Divina Providência , o Retorno
Queridíssima Divina Providência,
Faz um certo tempo que não escrevo a você. Isso é porque eu, como boa ser humana que sou, só lhe escrevia para pedir alguma coisa ou para que parasse de pegar no meu pé. O que aconteceu, como você bem sabe, não é que parei de querer coisas, não sei se haverá esse dia na minha vida, mas, de repente virei uma pessoa que prefere fazer as coisas que comprar feito. Digo isso como metáfora para as coisas da vida, você me livre de ter que confeccionar minhas próprias meias. Isso só quer dizer que eu prefiro ir atrás ou fazer o que eu quero fazer com a minha vida ( e não que alguém faça por mim), ao invés de querer que as coisas caiam na minha cabeça, principalmente porque dói muito. Ou pelo menos você fez questão que fossem super desagradáveis todas as coisas que você jogou na minha cabeça. Palhaçada.
Por falar em palhaçada, lembrei que seria bom voltar a lhe escrever porque ontem um palhaço passou bem perto de mim quando eu e mais um bando de pessoas esperávamos o sinal de pedestres abrir. Ele estava de bicicleta e fez aquelas palhaçadas normais pra gente, como se fosse o máximo da graça e merecesse um prêmio por ter posto alegria nos nossos corações. Tive muita vontade de meter o chute no pneu da bicicleta dele, mas meus reflexos não foram ninja o bastante. Lembrei que você me dá reflexos ninjas em momentos randômicos. Sim, randômicos, porque não vejo a semelhança entre chutar uma bola de futebol que atingiria o carrinho do Pedro sem nem notar conscientemente que ela estava vindo na direção dele e salvar o chão da Ludmila de ser sujo por um pote de molho agridoce caindo de cima da prateleira.
Ou isso, ou suas prioridades são piores que as minhas. Nunca me ensinaram muito bem esse negócio da Divina Providência ser sábia. Só que ela existe, ela é forte e tem um senso de humor peculiar, uma mistura de humores. Mais ou menos igual àquelas pessoas que não sabem classificar seu estilo de humor no orkut provavelmente porque nâo têm nenhum) e (como se acham super engraçadas) marcam todas as classificações. Só que eles são humanos perdidos e você é a Divina Providência.
Então, essa enrolação toda, querida divindade providencial é pra ver se a gente volta a ter nosso bate papo natural de sempre. Antes eu sempre escrevia pro Ilustre Desconhecido, minha idealização mór, meu amor platônico e para você, Divina Providência. Mas, cansei de amor platônico. Tá chato, batido, previsível. É sempre a mesma estória chata: apaixona, vive entre angústia e arroubos de alegria, aí conhece só um pouquinhozinho assim e perde toda a graça. Podia pelo menos esperar casar, fugir do país, provocar alguma revolução em algum país, uma guerra. Não. Nunca dura esse tanto. Como todas aquelas heroínas conseguiam manter a ilusão delas por tanto tempo? Fala a verdade, isso só durava por causa da repressão feminina e era tudo só sexo. Por isso que hoje só acontece entre as puritanas.
Maldita educação liberal! As católicas se divertem mais... Ou não.
Primeiro ítem, I.D, fora da minha lista de correspondências normais. E você? Se tivesse um jeito de te chutar pra fora da minha vida, tinha feito isso quando nasci. Mas, o máximo que se pode fazer são umas trocas desagradáveis ou virar, eu mesma, a Divina Providência. Ascendente em Leão, claro, mas não exagera. Taí uma coisa que nunca vou querer na minha vida: Altos cargos de direção em que você é o topo da hierarquia. Credo. Ninguém pra jogar a culpa, tendo que resolver o problema de todo mundo e, se o barco afunda, todo mundo pode se jogar, menos você. Você afunda com o barco, você é o barco.
Te deprimi? Espero que sim. Me esforço muito, sem muitas expectativas, você sabe que encho o saco pelo prazer de encher o saco. Os resultados são lucros. Correr atrás por correr atrás, eu estou aprendendo. Assim, meu sonho é me divertir com o processo e não com a fantasia da conquista, mas é um aprendizado duro. Acho que em mais três vidas eu consigo. Se bem que leram minha mão e dizem que minha alma é velha, motivo pelo qual eu digo pra minha mãe que minhas somatizações não são somatizações e sim umas espécies de reumatismo da alma. Ela não entende, mal ouve, já conclui logo que é besteira.
Aposto que você também não entendeu. Tem planeta demais na minha terceira casa, sabe, meu processo de comunicação é totalmente poluído. Tudo culpa sua. Meu grande amigo, sábio e editor aficcionado do jornal da faculdade, MarcUs, me disse um dia que acredita que Deus é um ser personificado só pela esperança de um dia poder chutá-lo. Para mim, escrever cartas dizendo "CUL-PA-SU-A" já libera muitas tensões. É um prazer escorpiano sádico. De uma pessoa que entende que não existe tortura maior para um ser humano do que lhe delegar funções e responsabilidades.
Tem gente ainda que acha legal, que é um voto de confiança. Bobinhos...
Mudando de assunto... Acabei de ler um artigo com entrevista da chefe/mestra sobre auto estima e fiquei orgulhosa de mim mesma. Peguei todos os sintomas maiores e pensei: "Ah, eu tenho isso... Quer dizer, tinha." Não é lindo? Claro que tudo não foi embora, mas também não tenho mais minhas crises homéricas. O perfeccionismo não me deixa, isso é verdade, e por isso eu procrastino escrevendo pra você (achou que eu estava te dando atenção porque você é especial?), porque o currículo lattes está me deixando frustrada. A procura de empregos também, e eu fui criança metida a gênio, então não lido bem com frustração e demoras nos processos da vida.
Falar em processos demorados da vida, porque você também não entra pro mundo da velocidade da informação, héin?
Enfim, a autopiedade às vezes aparece também, mas é preguiça. Dá aquele desespero assim, uma vontade de chorar mas nem eu acredito mais em mim mesma. Pura preguiça, pura vontade de ter coisas caindo na minha cabeça de novo. Falei pra minha mãe, todo libriano é preguiçoso, ela negou e foi tirar um cochilo. Sim, ela é libriana (culpa sua! =D ). E minha casa três regida por libra, héin? Dá preguiça suprema de pensar às vezes. Preguiça de ler, eu tenho principalmente quando não são as literaturas divertidas. Por isso inventei o método de leitura dinâmica porca. Funcionou muito bem na faculdade, e não me esfregue a demora de sete anos para me formar porque não foi bem meus métodos de estudos que me prejudicaram.
Meus métodos de estudos sempre foram ótimos. Leitura dinâmica porca, super embromation method com ainda o adendo das palavras mágicas para cada área (aquelas palavras que alguns professores gostam tanto de ler e ouvir, que nem percebem que estão numa frase que não quer dizer absolutamente nada), e o método "o que meu professor quer ler nessa prova?" Sempre existiam aqueles que queriam ler suas próprias palavras (admiro muito um professor que tive na Letras que sequer disfarçou essa sua preferência, já disse logo, o trabalho tem que ser baseado no que EU disse. Mas, também, professor de estética, se ele não fizesse isso ia ter tanta baboseira nas provas defendidas pela filosofia do "isso é como eu vejo a estética, a beleza é subjetiva e bla bla bla"). Existem também aqueles que querem ler determinadas palavras de seus mestres divinos (autores, filósofos, algum palestrante, ou mesmo o professor titular da disciplina que apareceu só no dia de apresentação da mesma) e tem aqueles raros que realmente querem ler aquilo que você aprendeu.
Na mesa da minha formatura tinham quatro desses últimos. Foi tão lindo!
Então, eu tenho auto estima agora. Você me ama mais? E quem disse que eu me importo? Ha! Convenci? Não? Droga!
Então é isso, cansei de escrever e eu tenho que voltar ao lattes. Espero que nossa conversa continue sempre e que eu não demore tanto para lhe mandar as correspondências quanto demoro para lançar os fascículos de Penny Lane. Se bem que você podia me devolver minha inspiração, né?
Quer dizer, esquece, eu vou procurar melhor no meu armário.

7 Comments:
Ainda bem que Deus é meu amigo pessoal. Além de encontrá-lo pessoalmente(correspondências são desnessárias) ele faz o que eu gosto. Bom não?
tb sou amiga pessoal de deus. Mas essa carta nem é pra ele, é pra D.P, não acredito em deus. Tumentiroso! E ele não entende nada que eu falo.
erm, comentário acima feito pela autora ^^
Também não acredito em deus,mas mesmo assim ele é meu amigo.
Quanto a D.P este eu só ouvi falar.
EstA, é A Divina Providência, vulgo, queridíssima D.P
E bota querida nisso...
e era estA mas teclo rápido demais...
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