quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Aquelas

- aquela que falou com vc hoje é a que quer que fique tudo bem, mas aquela que tinha saudade aquele dia, não para de gritar do lado do fone.
Estamos nós três aqui na sala, olhando para o telefone desligado.
Eu, sou a namorada, e tenho tantas coisas no peito que parece que não posso ser tanta coisa.
Sei mais quem eu escuto, mas sinto que aquela que não quer que as coisas se esqueçam, deve estar chegando à qualquer momento. Ah, é. Eu também sinto.
Batem na porta.
- Pode entrar...
- se pudesse eu não bateria. Tá trancada.
- Ah, desculpe.
Entra na sala aquela que é curta e grossa. Engraçado, ela parece mais grossa, vista assim de fora.
- Eu pensei que você estivesse de folga, desde aquele stress que tive...
- Não são férias....eu fui forçada.
Batem na porta novamente.
- quem é?
- A idiota que me forçou....
A curta e grossa olha com um certo desprezo, comedido.
- Chegou a neutra. - comenta, curta e grossa.
- E você veio em boa hora, veja só. Faz tempo que não nos vemos juntas, hãn? - entra e senta milimetricamente na cadeira, aquela que põe as coisas na balança.
- Veio tarde, eu não teria voltado para o bar enputecida se a grossa estivesse comigo. - fala a que tinha saudade aquele dia.
- Muito tarde, nem deu as caras antes e deixou aquela sonsa com a gente no meio do caminho, sem nem poder chegar. - fala aquela que sente a raiva no osso.
- Sonsa? Não fui eu quem não sabia como agir, querida. - entra aquela que é doce, mas azeda. Abre a janela e respira fundo. - Hoje faz um belo dia de calmaria...
- Apesar do dia, todo mundo aqui nesta sala sabe que estamos metade nervosas, metade discreditadas?!!!... - pesa aquela que põe as coisas na balança.
O telefone toca.
- Alô? Não, não quero ir. Quero ficar quieta. - fala aquela que quer que tudo fique bem.
- Desliga esse telefone e esquece isso. - diz a curta e grossa.
- Não podemos esquecer nada, isso não preciso dizer pra vocês. - Entra serenamente aquela que não quer que as coisas sejam esquecidas.


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- Mas ele devia ter pensado antes de dizer que não "precisava" que nós fôssemos mais! - fala aquela que tinha saudade aquele dia.
- Ele disse que não sabia que estávamos perto - refuta à que põe as coisas na balança.
- Ele não devia ter duvidado, é só isso. - diz aquela curta e grossa.
- Ele não devia ter tanto orgulho, isso é. - diz a doce, mas que azeda.
- Ih, azedou! - entra a que é sarcástica. Faz mensão de sentar-se no colo da que é doce mas azeda.
- Não enche! - pragueja a já azeda, mas doce.
- Não esqueçam vocês duas daquilo em que se meteram quando tive de tirar vocês da escola porque iriam apanhar de uma negona de 5 metros de braço. - todas riem na sala.
- Noooosssa. Isso faz taaanto tempo!- fala aquela que é doce, mas azeda, um pouco adoçada pela memória.
- E você não aprendeu muito à bater desde então... - fala a sarcástica.
- Paaaara vocês duas! A gente veio aqui pra ligar pra ele e resolver este dia! - grita a que sente a raiva no osso.
- Ou, se tivermos um pouco de inteligência, para deliberarmos o que fazer pra não acontecer de novo. - fala a que põe as coisas na balança.


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- M-mas... o ritmo é sempre muito mais importante ou muito "melhor" do que o andamento, sempre. - fala aquela que é a namorada.
- Ele sempre se defende exageradamente. É só defesa! - entra aquela que é amiga de outras datas, e pede uma caipirinha. - Ah, porque não fizemos esta reunião no boteco?!
- Odeio quem se defende como para atacar. - diz a curta e grossa.
- Eu acho que eu sinto saudade hoje. - suspira aquela que sentia saudade naquele dia.
- Nem vem você com isso....saco! - e levanta a que sente a raiva no osso.
- O pior é estar apaixonada, isso não devia ter chegado à esse ponto... -
abaixa o olhar a que quer que fique tudo bem, acendendo olhando o cigarro.
- Me arruma um cigarro, acho que estou um pouco perdida hoje. - entra decididamente aquela que é apaixonada. - Mas o sol foi bom.
- Olha só...Faz reeealmente muito tempo que eu não te vejo assim, quer dizer, como você sempre é quando é... - gargalha aquela que é amiga de outras datas. Me dá um cigarro também.
- Eu sei que isso a gente deveria esquecer, mas me arruma a nicotina.
- Pelo menos a gente fuma tudo de uma vez, acaba com o maço e não fica a noite inteira aqui. - fala aquela que põe as coisas na balança, pegando um cigarro.
- Ei! A gente podia fumar um, neste dia em que estamos todas juntas!!!! - fala a que é doce mas azeda.
- Se você ficar doidona e ficar oscilando entre suas meladices e biles amargas, eu me atiro da janela! - fala a que sente a raiva nos ossos.
- Como se você tivesse coragem nesta sua raiva! - fala a sarcástica.
- Mas e se ela tentar, se jogar, quebrar a clavícula e ficar com o ombro torto? - fala aquela que é insegura, entrando silenciosamente na sala.


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- A gente inventa um uso novo de andar com o ombro mais pro lado... Oi, gente. - sorrí a que é orgulhosa. - Aliás, queria só lembrar que não foi a primeira vez que a apaixonada queria muito vê-lo e o "ritmo" dele não permitiu...Estarei enganada?
- Ele estava trabalhando, empolgadíssimo! - põe mais um peso na balança, a que põe as coisas na balança.
- Eu tinha um vinho aqui, em algum lugar.... - fala aque quer que as coisas fiquem bem.
- Eu já bebí aquela que estava no armário. - diz a curta e grossa.
- Eu bebí aquela da geladeira. - diz aquela que tinha saudade aquele dia.
- Eu bebí outras um dia desses. - fala a apaixonada.
- Puta que pariu, estamos sem vinho e não paramos de falar! - reclama a que sente a raiva no osso.
- A gente pode fazer uma votação....- diz a namorada.
- mas meu voto tem que valer por dois. - diz a apaixonada.
- então o meu também tem. - sorrí solenemente a que é doce mas azeda.
- Votação não funciona desde a democracia. Vamos tirar no palitinho. - sugere a que põe as coisas na balança.
- Mas e se der que a gente tem que ir, e eu sentir toda essa raiva de novo, em outro dia? - todas sabiam quem tinha falado.
- Pode ser uma forma de você começar à rir nos ossos. - diz a que é doce mas azeda.
- Mas e se isso do orgulho não mudar nunca? - pergunta a que não quer que as coisas sejam esquecidas.
- Eu saio dessa e vou me orgulhar de alguma coisa melhor em vocês. Volto só depois. - fala a orgulhosa.


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- E se ele não entender o que estamos todas querendo exigir por equilíbrio? - pergunta a insegura.
- nós e ele sairemos por diferentes portas, e depois perceberemos isso claro quando estivermos velhinhos no leito de morte. Bem heróico. - fala a sarcástica.
- E se eu sentir saudade todo dia? - sussurra aquela tinha saudade aquele dia.
- Vai ficar tudo bem... - diz aquela que quer que fique tudo bem.
- Ou você sofre e depois entra numa terapia. - a curta e grossa corta a conversa.
Todas se entreolham, num silêncio cúmplice do caos demonstrando ordem. Acendem cada uma, sequencialmente, mais um cigarro, como uma onda de fumaça acendendo no ambiente que já escurecia.
Mais um pouco de silêncio percorre o pensamento de cada uma delas, até que o telefone toca.
Todas pulam de susto.
- E agora? É ele! - diz a namorada com o celular tremendo na mão (que tremia).
- Atende logo! - diz a apaixonada.
- Desliga! - diz a curta e grossa.
- Não...Atende e diz que está muito ocupada, que fala depois. - fala a orgulhosa.
- Não! Ele pode pensar que é descaso. - fala a insegura.
- Atende e conta pra ele que eu era doce até ele nos mandar embora aquele dia! - diz a doce mas que azeda.
- Ele fica noiado se você não atende. - fala a que não quer que as coisas sejam esquecidas olhando para a namorada.
- Desliga esta merda logo. - resmunga de ombros a que sente a raiva no osso.
- Desliga. - e toma o celular da mão da namorada - depois você fala que estava cagando. - fala a sarcástica desligando a ligação.
Todas se sentam num alívio.


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- Vai, vamos ligar pra ele. - diz a que quer que fique tudo bem.
Se entreolham. Mais umas tragadas no cigarro.
A que põe as coisas na balança diz alguma coisa em silêncio. Olha pra cada uma, como se dissesse algo que só é entendedido por cada uma. Levanta e vai embora.
Sutilmente, aquela que é orgulhosa deixa um bilhetinho na mesa ao lado do caderno de anotações. Fala que vai ao banheiro, abre um sorriso em sinal para a que não quer que as coisas sejam esquecidas e não volta.
A apaixonada, ajeita o cabelo caindo nos olhos, arruma a sandália e dorme, sonhando no sofá.
A curta e grossa pega a doce mas azeda pelo braço e sai pela porta.
A sarcástica pega o conto "Esses dois" do Caio Fenando de Abreu e posiciona estrategicamente às vistas. Sai da casa.
A que sente a raiva no osso, antes de sair, passa os olhos nos detalhes preferidos do conto. Sorrí e vai embora.
A que quer que as coisas fiquem bem acende uma vela, fecha um pouco a janela escancarada de vento gelado, e apaga a luz.
A que sentiu saudade aquele dia suspira, sente um cheiro conhecido do cabelo dele, e vai embora.
A insegura se abraça na que não quer que as coisas sejam esquecidas, que lhe afaga longamente os cabelos, ajeita-lhe o xale no ombro e leva-a pra fora.
A amiga de outras datas coloca o telefone na mão da namorada, dá-lhe um beijo quente na testa e sai batendo a porta.
Fica a namorada, o cinzeiro, os objetos remexidos na casa agora imóvel. Como se o som de todas movimentasse agora na sala mais alto, amplificado pelo silêncio; pequenos timbres do dia.
Era noite. Alta também.
Entre métricas e relógios...
- Hãn?!
- ...é, pois é. E aí a barata do banheiro ía te ligar enquanto eu tomava meu banho...
- Pede à barata uns conselhos...
Desligaram de novo. Conversados.
Entre poucos, soaram todas as outras por trás de cada cômodo. Saiam de vários cantos onde escutaram entocadas nos objetos ao redor. Foi cada uma procurar alguma coisa pra fazer.



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

com gelo.

E o macarrão com abobrinhas, cenoura e opção de moela está mesmo de se lamber os beiços, assim, comendo olhando pras coisas. O sabor é fato.

A gente tem tanta imaginação de sabor nas coisas, que às vezes até não sabe onde é que está sentindo na língua:
se é no claro ou no suave, no travoso e forte. muito gosto o tempo todo, a gente gostando tanto das coisas que a gente escolhe por na língua! Falar o quê?
Como Mercedes Sosa ali no canto da televisão narrando e cantando músicas de sua vida....
- Que é tão lindo que a gente não sabe se faz falta ou sobra
de gosto, e picante, duvidoso, conhecido ou ácido: enche a gente de presença de sabores que nos confortam papilas e exigem salivação...

Só queria te dizer que a saliva lapida palavras, gestos, gosto.

eu estou aqui pra te acompanhar na degustação:...se tiver amargo mesmo, vamos escutar o que a língua está sentindo....
Uma boa dosagem de gelo, gargalo, garganta ou coisa que contraponha, acentua as nuances e notas de sabor.

Me sentí meio amarga hj falando de tudo...Mas na verdade, é aquele papo de que não podemos duvidar das coisas que são:
antecipar-se ao cuidado e respeito por sua condição, mas não sorver um amargor desgostado, mesmo se não soubéssemos compor, colher, comer.
Mas compotar (ops), comportar os sentidos, peneirar sugos antes de engolir...
E salivar.

amo.

--

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Variação de sujeito (ou a invariável margem da vontade)


Ela a paixão de noites.
E
le a paixão de
dias.
Nela a vontade constante.
Na mesma noite, dia. Na mesma manhã.

É certo que, a dele, cotidianizara-se com a conquista de encantamentos di
ários.
Perto, longe. Perto. Sempre juntos. Sempre perto. Fraseada de acordos entre o envolver-se, e o construir, tornara-se uma paixão constantemente dedicada, dedilhada.

E é certo que a dela, deslocava-se dos dias, suspendendo as diárias em momentos intocáveis pelo rumor das horas, de argumentos de continuidade.
Era uma curiosidade descontínua, que suspendia as horas para continuar o encantamento. N
ão havia linha, começo, fim. Mas ali, suspensa, havia um meio. Sem fins.

E era ela outra també
m,
acertadamente descendo ao encantamento, adentrando ao aconchego das conversas, subindo a cerveja embebedada no botecar do peito.
Era um encontro que não se dava todo dia.
Brin
dar a sede de conversa foi até ainda há pouco tempo, não esperado.

Subiu
à cabeça. Subiu o argumento de descansar da marcação das horas.
Subiu-lhe o ímpeto de, ao menos entre amigxs, ao menos um dia na semana lotada de horas marcadas, subir-lhe o brinde do despropositado, do desmarcado, e, como não, do
descabido?

A vontade o é rodeada de mesuras descabidas.
Troca as pernas pelas mãos, o longe pelo especulado, o perto pela vontad
e.
E segue à vontade. E nunca sem vonta
de.

Mas depo
is,
como dizer à ela e à ele que não tinha nada, de minha parte, entre
nós e eles?
Eram ele, ou ela, e eu.
E nós, éramos 3 iguais na aplicação do sujeito da frase.
Cada um e seu significad
o.

Um nó no peito por não ter como dizer que não eram
eles. E eu.
Era falar de tudo o que se sente quando arrisca-se o senso ao toque de outro tempo.
De se querer conhecimento. De tato, e em tempos diferentes, em tantos paralelos.

Reconhecer deles,
apenas o que é transparente em sua história: filhos, memórias, identidades. E reconhecer a história a partir apenas de duas identidades: ele e ela.
Não eu ou ele
. Ou eu e ela.
O 'nós' se faz para os 3, só agora.
E
outra coisa são eles.

E
ela sabe que outra coisa serão elas...

Não há como reconhecer mentiras onde a pergunta ainda era o que era de verdade.
E não como cobrança, ou falsidade.
Verdade como o espontâneo, o entregar-se e o improviso sabem bem ser.

M
as muitas vezes as palavras não.

Parou os olhos nos minutos, desenhando miudezas até que encontrasse uma cor, uma imagem que explicasse como é quando uma coisa se apaixona por outra coisa, a ponto de outra coisa não caber no mesmo espaço de paixão.

Um nó nas vias do entendimento ou um laço nos fios da intimidade. Estrangulando o nexo das palavras. Estrangulando a continuidade dos dias. Suspendendo o sujeito.

Falar
à ela, exigia um toque de pausa, que contava aos sorrisos o que elas só conheceram em seu des-e-enrolar, e entre o -e-,
tudo o que só o feminino conhece: ambas em suas bocas de
sorrir opinião. Identificação.

J
á falar à ele, exigia um toque de dedos, que marcavam as horas há tempos, tateavam os dias, dedos de contar uma espera, de contar uma presença, de contar uma história.

E era falar aos dois, como se eles fossem neste caso, necessariamente juntos?
Era falar à eles, ao mesmo tempo, no improvisar de dois verbos diferentes expressados em uma mesma frase?

Rodeada de mesuras descabidas, a vontade pode ser definida com um ou mais contornos, uma ou menos medidas, assim como dentro de uma mesma desmesura que por ventura caiba.

Ter uma noção, ajuda à indefinir a dimensão. A desmesura começa aonde o limite pensa que passa.
Mas a vontade não é dimensão pras coisas. Ela é apenas proposta e improvisada, jeito sem palavras de ver como é que encaixa.

Não disse mais nada.
Subiram aos céus, desceram ao inferno, voltaram à Terra e sem pensar em
nada, disseram: "- eu quis."
E ficou à
vontade.




segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dimokránsa

"Tudu é agu na balai frádu
É rialidádi di oxindiâ."

composição:
Kaka Barboza

sábado, 13 de junho de 2009

Retrato de um poeta

Relevou a rosa vermelha na garrafa ao lado da porta, como armadilha tátil à chegada em casa.
Arrumou a cama amarela da anfitriã, recolhando as roupas espalhadas entre as passadas e a ausência.
Mera tática, a rosa relevada pela altura da caixa de som, que denotava sua música ou seu silêncio dedicado.
Era um encontro marcado, e como esses, sempre atrasados à ansiedade das esperas. Ou adiantado à ansiedade dos destinos.
Empilhou os livros devidamente mapeados no chão da sala, entre as plantas, a mesinha e o colchão espraiado no foco da sozinhez da espera como companhia.
O mapa desenhava o movimento do hóspede vagueando a casa, cada pensamento e intenção da estadia tocados aos objetos. A bituca de cigarro fora do lugar comum, o jornal rabiscado contornando as expressões das fotos, o guia da cidade e o mapa do transporte.
Se cada legenda deixada em bilhetes por seus passos estrategiavam as demandas à realizar, cada subtítulo pairou como desmanche na prática do despedir-se.
Era um encontro marcado, causado pela despedida.
Como falar de amor sem sentir, nessas falas impensadas das histórias de amor sem ter.
A tática. A estratégia. Os meros poemas. Os meros encontrões. Os meros despedir-se e seguir das vidas, deixando como memória do retrato de um poeta o incenso verde espetado em uma mexerica entreaberta e não acabada.

quinta-feira, 3 de julho de 2008



16 de julho de 2008........esse marcador tá doido.


...Por que eu ainda vou tatuar as lambidas escritas da Hilda Hilst rendadas em minhas coxas, isso ainda hei. Como ode pornográfica aos amores dela. E aos meus.

"Se os meus personagens parecem demasiadamente poéticos é porque acredito que só em situações extremas é que a poesia pode eclodir VIVA, EM VERDADE. Só em situações extremas é que interrogamos esse GRANDE OBSCURO que é Deus, com voracidade, desespero e poesia."

Ela compôs com Adoniran Barbosa, ela arranca suspiros de Drummond. Escreve crônicas, a autista, prosa e poesia, peças, despedaçada cotovia... AaAAAhhhh. Amo.

Segue um pedaço do poema de Drummond à lasciva:

"Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo em morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.
Esclareçamos o assunto.
Nada de beijo postal
No Distrito Federal o beijo é na boca e junto. "

E um poema dela à minha lasciva:





DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst

I
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

II
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

E ainda aproveitando a deixa.......

SAIA

Minha saia rôta
A boca ainda mais.
E Meu sentimento tôrto.
Desperto os joelhos,
As meias riscadas
As meias verdades rasgadas
O salto quebrado no pé.
Um batom borrado que nunca existiu
Um perfume enjoado evaporando sutil
E as unhas marcadas no peito vazio.
As lãs de meus dedos desfiando argumentos sem trama
A cama das coxas retirando os lençóis
Os olhos fechados desabotoando nós.
Visto a saia e daqui eu saio,
Com a desnudada sensação de me bordar aos poucos.
Franzir, cerzir e me pintar
(e a breve solução de remendar),
vestem de gala meus loucos.
Saio, a saia sem enganchar,
com a inteira certidão
de não mais
com ti nuar.


segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vísceras são vísceras, e não só cerebelo....
Gostou? Sou cheia dessas contradições.



.... diz:
preciso saber me defender
.... diz:
e parar de te envolver.
Furta a cor, e cora. diz:
ora....tu sabe meu bem.
Furta a cor, e cora. diz:
E eu sou envolvida, é irremediável...